O corpo indigesto

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“A mundiça tá de calcinha”

A frase acima foi proferida por um dos assassinos de Dandara, a travesti cearense que comoveu as redes sociais semana passada, quando o vídeo de sua morte circulou no meio virtual.

Aos 42 anos, Dandara teve sua vida tirada. Marginalizada, alijada, preterida, excluída, a travesti morreu sozinha.

Dandara nasceu homem. Mas Dandara era travesti. Dandara tinha um corpo, mas seu corpo era “indigesto”. Ela não fazia parte da norma, não era, portanto, benquista. Dandara era pobre e por ser travesti e pobre aprendeu desde cedo que ela não tinha espaço na sociedade se se assumisse como era. Mas Dandara peitou a sociedade e em troca tiraram-lhe a vida.

O corpo de Dandara jamais foi aceito, por isso até às margens foram-lhe usurpadas.

Eu chorei a morte de Dandara, assim como chorei e senti a morte de tantas outras travestis e transexuais e gays, lésbicas e bissexuais.

O caso da morte de mais uma travesti reforça a triste estatística de que o Brasil é o país que mais mata travestis e transexuais no mundo. Um país intolerante à diversidade e que, paradoxalmente, tem a população que mais assiste filmes com conteúdo adulto de “Ts”.

Um país indiferente aos crimes de LGBTfobia. Uma nação que não se preocupa em inserir esse nicho na sociedade. Um estado laico, “mas não ateu”, portanto cristão, que afirma não haver preconceito, mesmo que todos os indicadores apontem para a triste realidade dos fatos.

“Viado fêi”, disse um dos cinegrafistas – ou um espectador – do grotesco filme que ceifou a vida de Dandara. Em sua agonia, ela foi humilhada. Não “basta” matar, tem que mostrar que não existe lugar para quem foge à heteronorma. O recado foi dado.

Ensanguentada, nem sua feminilidade foi respeitada. “O homem afeminado que usa calcinha; a mundiça; a escória; o lixo humano”. Não obstante, ela foi carregada tal qual um saco de lixos em um carrinho de mão para ser jogada na vala.

Os opositores das chamadas “minorias sociais” acusam essas pessoas de quererem privilégios, de se vitimizarem o tempo todo. De fato, a cada 25 horas um LGBT é vítima do preconceito, da intolerância e do fundamentalismo das “maiorias sociais” que encontram respaldo nas vozes de políticos e pastores fundamentalistas, conservadores e hipócritas.

Ao fim e ao cabo, qual o privilégio que Dandara poderia querer? O de viver?

 

Tiago Minervino

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